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Mãe depois dos 40: conheça as emoções e os desafios da maternidade tardia

Kiara passou pela maternidade tardia. Ela esperou encontrar o parceiro certo para realizar o sonho de formar uma família. Aos 41 anos, ela optou pela fertilização in vitro para ajudar os gêmeos Arthur e Enzo a vir ao mundo

As duas semanas que antecederam o teste de Beta HCG foram provavelmente as mais longas nas vidas de Kiara Soares Bernardes e Jorge Luis Bernardes. Depois da espera e de tentativas frustradas, a possibilidade de gerar um filho era real. Veio então o resultado do exame de sangue e a surpresa viria no ultrassom 10 dias depois, com a confirmação de gêmeos: Arthur e Enzo. Graças aos avanços da medicina, da tecnologia e das pesquisas nas áreas de embriologia e biologia molecular, engravidar depois dos 40 é uma realidade possível.
A decisão de Kiara, 43 anos, por esperar o momento certo para ter filhos não foi baseada em questões profissionais.

– Esperei para ter uma pessoa legal ao lado, um parceiro de verdade. E isso é tão difícil hoje em dia. Nos encontramos e decidimos formar uma família – conta.

O casal começou a tentar engravidar naturalmente ainda antes de Kiara completar 40. Ela já havia sido diagnosticada previamente com endometriose, doença caracterizada pela presença do endométrio (tecido que reveste o interior do útero) em órgãos como trompas, ovários, intestinos e bexiga e que é uma das causas mais frequentes de infertilidade em mulheres.

– Quando decidi procurar tratamento, eu já tinha feito vários exames e sabia do problema. Eu não esperei. Eu e meu marido sabíamos que não tínhamos saída e que o único caminho seria
a fertilização – lembra Kiara.

O tratamento

Feitos todos os exames necessários para atestar a saúde e verificar não haver nenhuma alteração nos dois pacientes, começa o tratamento. O primeiro passo é o desenvolvimento dos óvulos. Para isso, durante 10 a 12 dias são aplicadas injeções com hormônios e, durante esse período, diariamente é feito ultrassom para avaliar o desenvolvimento.

– A mulher produz normalmente um óvulo por mês. Com a fertilização, é preciso ganhar tempo e ter mais óvulos para ter mais chance de êxito. Estimulamos os ovários com hormônios que fazem os folículos crescerem. Não é uma receita de bolo: para cada mulher há uma dosagem diferente, que pode ser aumentada ou diminuída no decorrer do processo. Quando estiverem maduros e no tamanho certo, planejamos o horário de retirada – detalha a médica especialista em reprodução assistida, Kazue Harada Riveiro.

O tamanho é microscópico: uma agulha entra pela vagina e o óvulo é recolhido por meio de punção. Na sequência é levado para um laboratório e analisado por embriologistas. No mesmo dia, o esperma do homem é recolhido e aí o milagre da vida acontece: a união do óvulo e do espermatozoide.

– Nos dias seguintes, vemos se os dois conseguiram se juntar. Eles vão se dividindo. De duas células passa para quatro, de quatro para oito. E assim vai evoluindo e vamos escolhendo. É emocionante – relata a Dra. Kazue.

O processo todo é rápido. Depois de cerca de 10 dias de tratamento com hormônios, faz-se a retirada dos óvulos e a fertilização. De três a cinco dias depois o embrião é implantado no útero. Dali a duas semanas já se pode fazer testes de gravidez.

– Nem todos os embriões são implantados no útero, mas em geral são colocados mais de um. O critério é por idade. No caso de Kiara, foram colocados quatro. A chance de sucesso é de 20 a 25% por tentativa – explica a médica.

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Os gêmeos com Kiara, a Dr. Kazue Harada Ribeiro e o pai Jorge Luis Bernardes. Foto: Betina Humeres

A boa notícia

– Lembro que compartilhei o resultado do exame com a Dra. Kazue e, de imediato, ela soprou que poderiam ser gêmeos. Fiquei feliz. E também assustada. Botei quatro embriões e eu sabia dessa possibilidade. O primeiro ultrassom foi a coisa mais emocionante do mundo, ouvir os coraçõezinhos batendo – lembra.

Kiara teve uma gravidez tranquila e saudável, sem doenças como diabetes gestacional ou hipertensão. Os gêmeos vieram ao mundo depois de 38 semanas de gestação, cada um com 2,5 quilos.

– É um sentimento que, por mais que a gente fale, não tem palavras que expressam o que é a maternidade. Aquele serzinho que sai de ti. Foi a melhor atitude e decisão da minha vida.

O mito

Quando Kiara decidiu ter filhos depois dos 40, o que mais ouvia eram frases do tipo: “você é maluca”, “aos 20 se tem mais energia para cuidar de criança”.

– É mentira. Tu acompanha igual. Busca energia de onde não tem. As crianças passam essa energia. A gente rejuvenesce. Vai se sentindo cada vez mais jovem – opina.

Com mais de 20 anos de experiência em reprodução assistida – a médica inclusive foi uma das pioneiras no Sul do Brasil, Dra. Kazue hoje encontra seus primeiros bebês de proveta já quase adultos.

– De lá para cá, percebo cada vez mais as mulheres com mais de 40 anos procurando tratamento. No começo, creio que se duvidava da possibilidade. Hoje eu percebo que uma mulher de 40 anos é mais madura e emocionalmente preparada para ser mãe – diz a médica.

E embora muitos casais prefiram a discrição em relação a gerar um filho por meio de fertilização, o preconceito é menor e o conhecimento é maior.

– Nunca tive problema para contar, pelo contrário. Para algumas pessoas isso é um tabu. Mas é normal ter dificuldade – afirma Kiara.

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Karen Leidens com sua pequena. Foto: Leo Munhoz

“Eu me preparei. E aí não desisti”

Aos 41 anos, Karen Leidens experienciou todas as intercorrências de uma gravidez de risco, entre elas a diabetes gestacional. A vontade de ser mãe e a maturidade foram fundamentais para seguir adiante e hoje a recompensa é uma bebê forte, linda e saudável. Maria Eduarda Boff é o xodó do irmão mais velho, João Vitor.

A empresária e mãe é um retrato da contemporaneidade, um tempo em que mulheres optam por dedicar-se à vida profissional e, só depois, formar família. Karen dedicou-se à carreira e curtiu a vida a dois até chegar perto dos 35 anos.

– Pensei: é agora. E foi tudo bonito e saudável. Eu trabalhava em Jaraguá do Sul e meu marido morava em Florianópolis. E abdiquei da carreira para ter meu filho. Sou especialista numa área que não tem na Capital. Então, mudei de área. Foi uma escolha – conta.

Foram três anos até o João Vitor ficar mais independente e ele próprio começou a pedir um irmãozinho.

– E agora? Eu tinha 39. Conversei com a minha médica, fiz todos os exames e engravidei, sem tratamento. Mas tive dois abortos seguidos. O primeiro nem formou, foi expelido. O segundo foi com 10 semanas. Fiz ultrassom de emergência e já não estava mais evoluindo. Cheguei a pensar que não queria mais.

Acima dos 35 já é alto risco

O mito dos 35 anos, afinal, não é mito: é fato que uma mulher de 25 anos tem mais óvulos e mais saudáveis do que uma mulher de 40.

– A gente considera já, acima dos 35 anos, uma gravidez de alto risco. Mas não significa que não vai poder engravidar ou que não terá reserva ovariana. Todas as mulheres acima dos 40 conseguirão engravidar? Talvez não. Muitas talvez já tenham uma reserva ovariana prejudicada. É possível? Sim. E é importante que a paciente seja orientada para o fato de que a gestação pode sim ser de alto risco – esclarece a ginecologista e obstetra Luísa Aguiar da Silva, médica que acompanhou as gestações de Karen.

Segundo a médica, conseguir engravidar pode ser difícil, mas é ainda mais comum a dificuldade em manter a gestação.

– Muitas mulheres podem adquirir doenças como trombose placentária, que aumenta risco de aborto em razão das más formações associadas à idade. Risco das cromossomopatias, das doenças genéticas. E têm ainda as doenças da gestação que são oportunistas, como pressão alta e diabetes – complementa.

Apoio para seguir adiante

Para Karen, o apoio e orientação médica foram imprescindíveis para seguir em frente.

– Quando decidi ser mãe, é como se já estivesse preparada para isso. E eu estava pronta para o segundo. Apesar das intercorrências, eu não desisti.

A empresária conta que a primeira gestação transcorreu de forma saudável e tranquila. Já na gestação da Maria Eduarda, vomitou durante os nove meses, teve diabetes, azia e tomava injeções diárias.

– Medo? Passei por duas perdas, então o começo é difícil, porque não se sente nada. As primeiras 12 semanas são mais tensas, mas passou. Com a maturidade, ficamos mais seguras
– diz Karen.

A disposição muda?

Tem quem ateste que o pique para cuidar de uma criança muda com o avanço da idade. Tem quem discorde. Ao comparar as duas experiências, Karen diz ter sentido diferença, mas que foi abençoada duas vezes, porque os dois filhos são calminhos e dormem bastante. Ao mesmo tempo em que bate o cansaço, a maturidade fala mais alto e quem é mãe pela segunda ou terceira vez está mais preparada emocionalmente que uma de primeira viagem.

– Me sinto plena. Para mim está tudo cumprido. Aquele checklist da vida está todo ok. Foi uma decisão que tomei. Preferi esperar, fazer a minha vida e agora viver com eles. E ver o amor entre eles é compensador. Tive conquistas profissionais que talvez com eles não acontecesse. E agora é outro momento – finaliza.

Para a Dra. Luísa, as mulheres estão engravidando mais tarde porque estão inseridas num mercado de trabalho que exige muito tempo.

– Os nossos pais também estão no mercado de trabalho e não conseguem nos ajudar. E esse é um medo comum: querer ter filhos, mas não querer que seja filho de uma babá ou de uma escolinha. E aí vem a sociedade e julga – comenta.

Segundo Karen, a maternidade requer que se abdique de coisas. E quanto mais maduro um casal, melhor, porque sabe que vai ter que abrir mão de algumas coisas.

Quer engravidar? Prepare-se para isso

As dicas de quem já passou por uma gestação depois do 40 anos passam sempre pela preparação: conheça seu corpo, suas limitações, faça exames e busque um profissional para orientar sobre as possibilidades.

O primeiro passo é querer. Não porque a sociedade cobra, mas que seja um desejo genuíno. E depois é importante preparar-se previamente, tomar medicações necessárias, como ácido fólico e ômega 3. Para as mulheres, é fundamental fazer todos os testes para verificar se existe tendência à diabetes. E para os homens, tem que fazer testes como espermograma e outros para avaliar a saúde dos espermatozoides.

– A gente pode avaliar se o casal tem condições de ter filhos ou não, porque depende do homem e da mulher. Com exames, medicações prévias e uma gestação saudável, além do acompanhamento profissional de quem tenha experiência nesses casos ajudam a evitar problemas. O médico tem o dever de informar sobre os riscos e cuidados e encorajar, se é o desejo, ciente dos riscos. E tentando contornar – explica a Dra. Luísa.

Mais difícil e mais arriscado

Os problemas são de várias ordens. Um deles tem a ver com a perda de fertilidade. Até os 30 anos, a chance de uma mulher engravidar no mês, se estiver tentando, é de 25%. Depois dos 40 anos, o índice cai para apenas 10%. Eduardo Passos, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, explica que isso ocorre porque, nessa idade, 80% dos embriões são anormais do ponto de vista genético, o que acontece por causa da idade do óvulo. Como consequência, a gestação não vinga.

Nos casos em que a mulher consegue engravidar, surge um outro problema, o dos riscos para a saúde do feto. Em mulheres mais maduras, há mais chance de que a criança tenha uma série de doenças genéticas. A mais comum é a síndrome de Down. No caso de uma mulher de 25 anos, a probabilidade de um bebê nascer com Down é de uma em mil. Se essa mesma mulher engravidar aos 45, a chance é de uma em 30.

Outra dificuldade diz respeito à própria saúde da paciente. Na faixa dos 40 anos, variadas doenças, como hipertensão arterial ou diabetes, tornam-se mais frequentes, o que é um complicador para a gestação. Ela também teve mais tempo de exposição a relações sexuais. Caso não tenha se protegido adequadamente ao longo da vida, é mais provável ter adquirido alguma DST que levou a uma doença inflamatória pélvica, uma das principais causas de infertilidade.

Opções de congelar os óvulos

Existe um jeito de “enganar” a biologia e de deixar a maternidade para mais tarde sem incorrer nos riscos que tal opção normalmente acarreta. Essa saída, cada vez mais utilizada,consiste em congelar óvulos jovens para utilizá-los no futuro. Trata-se de uma estratégia que dribla o principal problema da maternidade tardia, a perda de qualidade dos óvulos devido ao envelhecimento, responsável por diminuir as taxas de fecundidade e aumentar o risco de doenças no bebê.

– Óvulos mais jovens são óvulos mais férteis,que não têm DNA alterado, então diminui a chance de erros cromossômicos. Se o óvulo for congelado jovem,ele manterá esse DNA jovem, o que é um jeito de reduzir as perdas – observa Jaqueline Lubianca, professora de ginecologia da UFRGS.

Especialistas recomendam que as mulheres façam o congelamento até os 35 anos, caso planejem uma gestação para mais tarde. Segundo Eduardo Passos, mulheres que congelam 10 óvulos até essa idade têm 60% de chance de engravidar.

Se fizerem o congelamento depois, a probabilidade cai para 30%. A opção pelo congelamento significa ter uma gravidez aos 40 e poucos anos em condições iguais às que teriam uma década antes,porque as dificuldades para gestar um filho e para tê-lo saudável não estão relacionadas à idade da mulher,e sim à idade do óvulo. Mesmo a amamentação não será um problema. A produção de leite não se altera – a menos que tenha havido alguma cirurgia na mama.

– A gente vê hoje muita paciente que faz prótese cedo e,com a prótese, alguns ductos podem ser seccionados, removidos, o que prejudica a lactação – observa Jaqueline. A técnica para congelar os óvulos é considerada simples. Envolve um preparo de duas semanas,ao qual se segue a retirada, em procedimento ambulatorial. Os óvulos congelados não têm prazo de validade. Uma dificuldade, dependendo da condição financeira da paciente, são os custos. Eduardo Passos afirma que as despesas rondam os R$ 4 mil em medicação e mais R$ 7,5 mil para o congelamento.

 

As exigências sociais

Itamar Melo, especial

As exigências da biologia e as pressões da vida em sociedade têm um pendor ancestral para entrar em conflito, e uma das arenas onde esse confronto se desenrola com maior frequência e angústia, nos dias atuais, é a maternidade. O corpo pede, para o bem da mãe e do bebê, que a gravidez aconteça quando a mulher ainda é jovem, de preferência até os 35 anos.

O sistema social colabora cada vez menos para isso: terminam-se os estudos mais tarde, é preciso fazer aquele estágio ou intercâmbio no Exterior, há que engrenar a carreira primeiro, os casamentos se tornam tardios. Se em um passado não muito distante a preocupação das mulheres costumava ser não engravidar com idade precoce, atualmente o que tira o sono de muitas é não deixar para ser mãe muito tarde – ou mesmo tarde demais.

Esse é o dilema. A mulher vive entre a ânsia de alcançar metas e ambições, por um lado, e o tique-taque ensurdecedor do que parece ser uma contagem regressiva. Como de hábito, quando a biologia e a vida social entram em conflito, a última parece estar levando vantagem. As estatísticas apontam que as brasileiras esperam cada vez mais para ter filhos.

Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 30,9% dos nascimentos concentravam-se em mães de 20 a 24 anos em 2005. Dez anos depois, o percentual nessa faixa etária recuou para 25,1%. Enquanto isso, na faixa dos 30 aos 39 anos, o índice pulou de 22,5% para 30,8%. Um outro levantamento, publicado em 2014, apontou que, entre as mulheres mais instruídas, com 12 ou mais anos de estudo, quase metade só tinha o primeiro filho após os 30 anos.

A questão que atormenta muitas mulheres – e seus companheiros, naturalmente – é até quando postergar sem que se coloque em risco o sonho de ter uma criança, e de que ela seja perfeitamente saudável.

– Existe uma discussão sobre qual a melhor idade para engravidar, do ponto de vista biológico. Não é comprovado, mas seria entre os 24 e os 27 anos. O que acontece é que, quanto mais a paciente quer desenvolver a sua carreira, mais ela vai levando para cima essa idade e mais vão aparecendo dificuldades. O que vemos hoje é um grupo grande que permanece tendo filhos antes dos 20 anos, daí o pessoal se cuida muito dos 20 aos 35, e depois disso começa a crescer de novo. Quando a paciente chega lá pelos 34, 35 anos, já começo a dizer a ela: “Tu tens de dar uma pensada do que vai fazer da tua vida”. A partir dos 37, 38 anos, já começa a ter mais dificuldades – afirma José Geraldo Ramos, professor titular de ginecologia e obstetrícia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Material publicado originalmente em  https://www.revistaversar.com.br/index.php/2018/03/30/maternidade-tardia/

Sobre o autor

A Clinifert é a primeira e única clínica de reprodução humana, do estado de Santa Catarina, certificada pela Red Latino Americana Reproducción Assistida. Com sede em Florianópolis, atende todo o Sul do Brasil.

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