técnicas de reprodução assistida

Novas técnicas de reprodução tornam possível o sonho de ter um bebê

Pioneira na geração de bebês de proveta em Santa Catarina, Kazue Harada Ribeiro fala sobre as novas técnicas de reprodução assistida

A vontade de proporcionar às famílias catarinenses a realização do sonho de ter um filho foi o que motivou a médica paulista Kazue Harada Ribeiro a criar uma clínica especializada em reprodução humana, em Florianópolis, em 1997.

Kazue Harada Ribeiro trabalha há mais de 30 anos com técnicas de reprodução assistida – Marco Santiago/ND

Mas essa história começou muito antes, quando a atual diretora da Clinifert ainda era estudante de Medicina. Com interesse nos estudos de reprodução humana e na parte hormonal feminina, ela fez residência e trabalhou como
assistente da Faculdade de Medicina, no setor de Esterilidade Conjugal do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

Também trabalhou no Centro de Planejamento Familiar de São Paulo, onde fez parte da equipe do professor Dr. Milton Nakamura, responsável pelo primeiro bebê de proveta do Brasil. “Trabalhei com o Dr. Nakamura por vários anos e fui me interessando cada vez mais por essa área que é fascinante, extremamente inovadora e que utiliza tecnologias avançadas”, conta a médica.

Após casar-se com um catarinense, mudou para Florianópolis, onde montou sua própria clínica, sendo pioneira na introdução de novas técnicas de reprodução assistida e na geração dos primeiros bebês de proveta do estado de Santa Catarina. Hoje, seu Centro de Reprodução Humana é referência no tratamento da infertilidade, sendo a única clínica no Estado certificada pela Red Latino Americana Reproducción Assistida.

Passados mais de 20 anos, e com mais de mil nascimentos que aconteceram após sua intervenção, a médica diz que as técnicas evoluíram muito. “Meus bebês de proveta já estão na casa dos 20 anos”, relembra. “Nas últimas duas décadas, a área da reprodução assistida teve uma evolução surpreendente do ponto de vista de novos conhecimentos de medicina molecular e genética, da inovação nos meios de cultura de embriões e dos equipamentos, cada vez mais sofisticados, para o tratamento do casal infértil”, aponta.

Uma das grandes evoluções da FIV (Fertilização in vitro) foi a descoberta da técnica ICSI (Injeção intracitoplasmática do espermatozoide), utilizada até hoje pela Dra. Kazue. Nesse método, basta um único espermatozoide que é selecionado e injetado diretamente dentro do óvulo, obtendo-se altos índices de fertilização. “Essa técnica é muito eficaz e benéfica principalmente em casos de oligospermia grave (baixa contagem de espermatozoides) ou azoospermia (ausência total de espermatozoides no ejaculado) – nesse caso o espermatozoide é obtido diretamente do testículo mediante uma punção com uma agulha delicada ou biópsia – e também para mulheres com poucos óvulos”, detalha.

Quando a reprodução assistida é indicada

Por conta dos avanços na área da reprodução assistida, as chances de engravidar, hoje, são muito maiores do que há 20 anos. ” Antigamente, era comum engravidar por volta dos 21 anos; atualmente, raramente a mulher engravida nessa idade. Ela posterga a maternidade até conseguir estabilidade profissional , financeira ou até ter encontrado o parceiro ideal, de modo que começa a pensar em ter filhos por volta de ou após 35 anos”, aponta a médica.

O problema é que a medicina ainda não conseguiu superar a barreira do “relógio biológico”. Embora a mulher possa engravidar em qualquer idade, há um declínio da fertilidade e as dificuldades são crescentes a partir dos 35 anos, devido a diminuição na quantidade e qualidade dos óvulos. ” Então, aconselhamos que mulheres acima dessa idade, que não conseguem engravidar após um ano de tentativas, procurem ajuda médica”, revela Kazue.

Mulheres por volta dos 40 anos, ou portadoras de ovários policísticos, endometriose ou problemas inflamatórios já diagnosticados, devem procurar um especialista, antes mesmo desse prazo. No caso dos homens, é recomendável fazer sempre um espermograma, exame simples que pode revelar ou descartar algumas causas de infertilidade.

Para escolher o tratamento adequado, tudo começa com uma avaliação médica do casal. “Nem sempre há necessidade de FIV. Às vezes, um tratamento clínico com medicamentos para estimulação ovariana ou antibióticos para tratamento de alguma infecção, pode resolver”, afirma. “Outras vezes, para problemas não muito graves, em mulheres jovens, com tempo de infertilidade não muito longo e problemas masculinos leves, podemos indicar a inseminação intrauterina (ou inseminação artificial).

O método é simples e consiste em preparar o sêmen no laboratório, selecionar os espermatozoides e introduzi-los no útero com um delicado cateter, no momento mais próximo da ovulação, determinado por controle através de exames de ultrassom.

Pioneira nas novas técnicas de fertilização, Dra Kazue também é responsável pelos primeiros bebês de proveta em SC – Marco Santiago/ND

Endometriose e infertilidade

A endometriose atinge de 10 a 15% das mulheres em idade reprodutiva, em intensidade variável, e é uma das maiores causas femininas de infertilidade. “De um modo geral, quanto mais avançada a enfermidade, maior a dificuldade de engravidar”, explica Kazue.

A doença é caracterizada pelo aparecimento de células do endométrio fora do útero, podendo atingir ovários, trompas, bexiga, intestino, mas sua causa é desconhecida. Na maioria das vezes, provoca dores intensas e progressivas, do tipo cólica menstrual, dor abdominal, alterações urinárias ou intestinais cíclicas (relacionada à menstruação), menstruações irregulares ou abundantes e infertilidade.

“Estamos no mês da endometriose e queremos alertar a população feminina desde a adolescência e os profissionais da saúde de que a doença existe e da importância do diagnóstico precoce, para amenizar a progressão da doença. O tempo médio até o diagnóstico chega a 10 anos”, aponta a médica. Em casos severos, a gravidez só será possível através das técnicas de fertilização assistida.

Acompanhando a evolução social

As técnicas de reprodução assistida também têm beneficiado as novas constituições familiares. No caso de casais homoafetivos femininos, é possível ter filhos através de inseminação intrauterina ou fertilização in vitro, utilizando-se espermatozoides de um banco de sêmen. “Em casos de FIV, os óvulos podem ser coletados de uma das parceiras, fertilizados e implantados no útero de uma delas, dependendo do desejo e das melhores condições de saúde para levar uma gestação”, diz Kazue.

Em casais masculinos, há uma maior complexidade, porque há necessidade de óvulos de uma doadora anônima e um útero de substituição para gerar o bebê, de uma parente de um dos parceiros até o quarto grau e com até 50 anos de idade. Não havendo familiares, pode-se recorrer junto ao Conselho Regional de Medicina para autorização.

A ovodoação é indicada em mulheres mais idosas que desejam engravidar e não possuem boa produção de óvulos ou mesmo mulheres jovens com insuficiência ovariana precoce. E, em casos de produção independente, a mulher pode ser submetida à inseminação intrauterina ou fertilização in vitro, com espermatozoides de banco de sêmen.

Pensando no futuro

Uma grande revolução dentro da medicina reprodutiva foi o aperfeiçoamento dos métodos de congelamento de óvulos. “Atualmente, a técnica de criopreservação de óvulos , denominada Vitrificação, permite uma recuperação de 90 a 95% do material congelado contra 50-70% das técnicas anteriores”, afirma Kazue.

Portanto, congelar óvulos é uma excelente opção para mulheres que querem ser mães mais tarde, ou porque não encontraram o parceiro ideal até determinada idade ou, simplesmente, porque precisam adiar o momento da maternidade. Embora não haja uma garantia absoluta de gravidez, representa uma possibilidade de engravidar mais tarde a partir de óvulos de melhor qualidade.

Mulheres e homens que irão se submeter a tratamento oncológico (radioterapia ou quimioterapia) podem optar pela criopreservação de óvulos e espermatozoides, antes do tratamento contra o câncer. O armazenamento garante a preservação do material genético por tempo longo, indeterminado.

A medicina reprodutiva também abriu caminho para beneficiar casais com anomalias genéticas, através do estudo no embrião antes de sua implantação. “Denominamos isso de diagnóstico genético pré-implantacional. Ele pode ser utilizado por mulheres com idade mais avançada que têm maior risco de anomalias cromossômicas e quando há alguma doença hereditária na família e o casal deseja fazer uma análise prévia e específica sobre essa enfermidade”, aponta a médica.

Além disso, os conhecimentos em fertilização podem levar a novas perspectivas no estudo das células-tronco. “Quem sabe no futuro possamos construir óvulos, assim como se faz com células do pâncreas, por exemplo. A descoberta certamente seria revolucionária, libertando as mulheres do chamado relógio biológico”.

Saiba mais

Na FIV clássica (“bebê de proveta”), os óvulos são retirados da mulher e o sêmen do homem. Após processado no laboratório, os espermatozoides são colocados ao redor do óvulo para que ocorra a fecundação natural. Depois, é feita a transferência para o útero. É uma técnica utilizada em casos mais simples.

Na técnica ICSI, é feita a injeção de um único espermatozoide dentro do óvulo com auxílio de uma micropipeta e microscópio mais sofisticado. Após a injeção, os embriões são acompanhados por um período de três a cinco dias até serem transferidos para o útero da paciente. O método é utilizado para todos os pacientes, em especial no caso de homens com problemas mais severos como a azoospermia.

Na inseminação artificial, o sêmen preparado em laboratório é introduzido no útero, com um cateter delicado sob visão de um equipamento de ultrassom, no momento mais próximo da ovulação.

Em ambas as técnicas, são administradas drogas indutoras da ovulação e realizada a monitorização da ovulação.

Matéria publicada originalmente em NDonline 30/03/2019.

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